Saída rápida pela esquerda

Desenho de uma mão pintada de branco numa parede preta apontando para esquerda - Photo by Giulia May on Unsplash

— Próximo!

— Bom dia meu rei.

— Senhor, por favor. Pode seguir o corredor e virar a direita.

O processo seletivo para acessar a República da Asa Branca não era difícil se você tivesse o mínimo de noção. A entrada para os habitantes do Brasil do Sul mais utilizada vinha de Minas Gerais e tinha em Cândido Sales o seu posto de acesso para triagem.

Além dos documentos pessoais, uma pequena entrevista era realizada para verificar se a pessoa era merecedora de acessar o país recém formado pelo Consórcio Nordeste. Das mais de duzentas requisições que apareciam por dia, apenas uma dúzia delas eram aprovadas. Devido a essa baixa taxa de aceitação, a fila era popularmente conhecida como “trenzinho da sacanagem”.

— Próxima, por favor.

— Bom dia, aqui estão meus documentos.

— Qual o motivo da visita senhora?

— Vim para a benção do Olodum.

— Que é que dia mesmo?

— Sexta. Sexta-feira.

— …

— Né?

— Pode seguir o corredor e virar a direita senhora. Boa diversão.

Duas vezes ao dia, alto-falantes ecoavam a voz da Maga Margareth Menezes cantando Faraó. Assim que ela puxava o refrão “Eu falei Faraó ó óoooo” havia uma pequena pausa no som para esperar a resposta. Todos aqueles que não repetiam “Êee Faraóooo” eram convidados a se retirar e tentar um outro dia.

Quando faltava pouco menos de vinte pessoas para encerrar o expediente, chegou a vez de um casal de jovens vestidos com o manto do Santa Cruz.

— Boa tarde, viemos acompanhar um dos maiores clássico do país.

— Depois do Ba x Vi?

— Por isso eu disso um dos. Respondeu a moça se antecipando ao hesitante jovem que lhe acompanhava.

— Vocês terão que correr que o jogo é hoje a noite e ainda tem muito chão pela frente.

— O carro já está com o trajeto sincronizado, pagamos todas as taxas e vai dar tempo sim moço.

— E o Santa vai jogar contra quem mesmo?

— Náutico. Respondeu o rapaz de bate-pronto.

— O grande Leão da ilha.

— Sim!

— Ok, é o suficiente, podem seguir o corredor e virar a direita.

Olhou por um momento o casal caminhando sorrindo antes de chamar mais uma pessoa.

— Pode vim família.

— Boa tarde, aqui estão os documentos, incluindo a certidão de nascimento dessa jovem mocinha que tá doida pra ver o mar.

—Espírito Santo?

— Sim, mas moramos em Minas, a pequena aqui nasceu em Teófilo Otoni.

— Sim, tô vendo. Gostam de moqueca né?

— Bastante, bastante.

— Qual o principal ingrediente de uma boa moqueca?

O senhor suou um pouco, dava para ver sua pele começar a avermelhar por todo o pescoço. Respirou fundo e respondeu:

— Dendê?

— Muito bem. Sejam bem vindos família. No final do corredor vocês vão virar para a esquerda.

Antes de saírem pelo caminho indicado, pararam por um instante ao ouvirem gritos de horror vindos da outra porta. Se benzeram e, antes que a mãe da pequena Valentina girasse a maçaneta, a porta abriu e uma luz intensa preencheu todo o corredor.

Em meio a um mar de sorrisos e muitas boas vindas recebidas, um rapaz gritou do outro lado:

— Bebeu água?!

--

--

Baiano, engenheiro de software, redator na pocilga.com.br, integrante do podcast Suco de Umbivis e aspirante a escritor. Nas redes sociais @marciosmelo

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
Marcio Melo

Marcio Melo

Baiano, engenheiro de software, redator na pocilga.com.br, integrante do podcast Suco de Umbivis e aspirante a escritor. Nas redes sociais @marciosmelo