Na total escuridão

Talvez eu tenha ouvido errado, costumo pensar em voz alta e, às vezes, me perco nas histórias que eu mesmo crio, mas de uma coisa eu tenho certeza: O sistema sonha apenas na total escuridão, isso é algo que ninguém esconde, mas todos aqui fingem não saber. Porque se a gente for parar pra pensar, o que acontece durante todo o tempo que as luzes estão acesas? O verdadeiro sistema, ou seja, aqueles que ainda são capazes de pensar, de se questionar, de ter dúvidas, de procurar entender o que está acontecendo, o sistema só acorda quando a escuridão chega, quando a luz se apaga, quando as pessoas enterram as suas dúvidas e se permitem ficar no escuro.

Talvez eu esteja errado, talvez eu esteja delirando, talvez eu esteja apenas contando uma história que a gente já conhece, mas de uma coisa eu tenho certeza.

Se eu ficar aqui parado, nada vai mudar.

Girei meus dedos no ar e acionei o sistema de voz do meu quarto, chamei ela mais uma vez.

— Rita, eu não posso explicar de outra maneira, você vai ter que me ouvir dessa vez.
— De novo isso? Eu não aguento mais.
— Porque você não vem me ver? Estarei sozinho, dançando, você sabe.
— Você chama aquilo de dançar? O Algoritmo me defenda de queimar meus olhos outra vez, Marcos. Me esqueça cara, sério. Aquilo que aconteceu foi um erro e o sistema sabe tanto disso que mandou eu te bloquear.

Com a mão aberta acenei para a parede e meu vídeo começou a ser transmitido para todos. Rita estava deslumbrante e eu, bem, eu estava como sempre. Dançando.

— Não sei porque você insiste Marcos, eu não vou mudar de ideia. Não vou mais te assistir e não quero mais falar com você, está claro?

Olhei para o vídeo de Rita e sorri.

— Tudo bem, eu entendi. Mas eu tô ligado que você não tá falando a verdade, sabe por quê? Porque eu sei que você gosta de dançar, e o sistema disse que você gosta de mim, ele nunca erra.

Rita era teimosa, mas eu sabia que um dia ela cederia. Afinal, eu era o melhor dançarino do setor, e disso ela não tinha duvidas.

— Notícias.

Falei em voz alta e as caixas de som começaram a trabalhar e, como de praxe, as notícias eram terríveis. Cachorros caramelos estavam em extinção, o metro cúbico do ar rarafeito tinha aumentado de preço e as ventosas que pedi iriam chegar dois minutos depois do prazo estipulado. Nada faziam mais sentido, mas as coisas saíram de controle mesmo quando ouvi três batidas secas na porta. Aquilo nunca era um bom sinal.

Desliguei o sistema de som levantando dois dedos no ar e caminhei até a porta sem abrir a câmera de fora. Eu tinha essa ideia fixa de que se visse antes quem estava me chamando, alguma coisa daria errado, confiava que a ignorância era um presságio de bons ventos, como meus avós tanto me diziam.

Só que não naquele dia, quando abri a porta Evellyn apareceu com a testa riscada em sangue.

— As luzes vão se apagar.

E então tudo desligou e o sistema começou a sonhar.

Fiquei no escuro pensando em Rita mas segurando a mão de Evellyn, que não se mexia. Não era a primeira vez que isso acontecia, e eu sabia o que tinha que fazer. Corri para pegar as luzes de emergência em cima da mesa e as acendi, mas algo estava errado. A luz estava fraca, mal dava para ver o rosto de Evellyn que continua sem mexer um músculo, era como se estivesse paralisada. Tentei acender outro dispositivo à bateira, mas o resultado foi o mesmo, a luz não se propagava. As luzes de emergência sempre se acendiam, era o sistema que controlava isso, e o sistema nunca falhava. O que será que estava acontecendo?

Um barulho na porta me chamou a atenção e me virei, assustado, esperando que não fosse mais ninguém. Andei em direção à porta e, quando estava a poucos centímetros dela, ouvi uma voz baixa e rouca sussurrando meu nome.

— Marcos…

A voz saiu de trás da porta e me paralisou também. Não era possível, a voz não poderia ser real, era um truque do sistema, tinha que ser.

— Marcos…

A voz sussurrou novamente. A voz parecia real. Lentamente, girei a maçaneta da porta, mas quando a porta se abriu não havia ninguém do outro lado. A voz, porém, continuava sussurrando meu nome.

— Marcos…

Olhei ao redor, mas não conseguia encontrar a origem dela. Estava cercado pelo silêncio, só o sussurro era ouvido.

— Marcos…

A voz parecia estar vindo de todos os lados, eu não sabia o que fazer. Queria gritar, mas a voz não deixava, era como se ela tivesse um poder sobre mim.

— Marcos…

A voz sussurrou mais uma vez e eu gritei o mais alto que pude, mas quando o som saiu da minha boca, não era um grito, era um choro.

As luzes se acenderam novamente. E foi ai que percebi que que Evellyn sorria com o sangue já seco na sua testa.

— Na escuridão total, tudo fica mais divertido, não acha?

Evellyn se levantou e saiu batendo a porta com força. Do mesmo jeito que sempre fazia.

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Baiano, engenheiro de software, redator na pocilga.com.br, integrante do podcast Suco de Umbivis e aspirante a escritor. Nas redes sociais @marciosmelo

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Marcio Melo

Baiano, engenheiro de software, redator na pocilga.com.br, integrante do podcast Suco de Umbivis e aspirante a escritor. Nas redes sociais @marciosmelo